15 janeiro 2009

Há ou não um cavalo na história de Paulo?

Não se sabe.

Pelo menos nenhum texto dos Actos ou das Cartas o refere. Mas se nos fizessem a pergunta, e sem pensar muito, quase todos diríamos que sim. Simplesmente porque a tradição iconográfica representou o Apóstolo dessa maneira, e numa intensidade tão impressiva, que estávamos prontos a jurar ter lido em qualquer passo acerca dele. Há, de facto, um inesquecível cavalo, mas nas imagens de Dürer, Miguel Ângelo, Tintoretto, Rubens, Parmigianino… - uma lista interminável! Frequentemente referido é o da pintura de Caravaggio [na ilustração] , intitulada "Conversão de São Paulo": Paulo surge caído por terra, com os braços abertos e levantados, como quem acolhe o invisível; os olhos completamente cerrados, ligados agora a um outro entendimento. E, no centro, um cavalo imenso, a deslocar-se suavemente para fora de cena, como se não fosse já necessário, ou adivinhasse que começava, precisamente aqui, outro tipo de viagens para o seu cavaleiro derrubado.
Se o texto bíblico não alude à presença de um cavalo, como se chegou a essa representação? Há um motivo que joga com aquilo que o relato não diz, mas que é previsível (de facto, o cavalo seria um meio de transporte utilizado). E há uma importante razão simbólica. O texto de Actos 9 conta que Paulo "respirava ameaças e mortes contra os discípulos do Jesus" e foi pedir ao Sumo Sacerdote "cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse homens e mulheres que fossem desta Via, os trouxesse algemados para Jerusalém". O seu retrato é, portanto, o de um homem investido de força, acorrentado a uma convicção implacável. Ora o que a narrativa vai, em seguida, mostrar é a prostração e a fragilidade de uma personalidade assim perante a revelação de Jesus ("Saulo, Saulo, porque me persegues?"). Os textos bíblicos não dizem que Paulo tombou de um cavalo, apenas que "caiu por terra". Mas interpretando a reviravolta que este encontro provocou, artistas e comentadores espirituais não hesitaram em enfatizar esta queda. A globalidade da história de Paulo mostra que estão certos.

05 janeiro 2009

Cristão Adulto X

Cristão Dialogante


Um cristão adulto procura, quer e esforça-se pelo diálogo com todos, nomeadamente com aqueles que procuram em Deus o sentido último da sua existência. O diálogo, como movimento de aproximação é o processo de busca da unidade. Esta unidade através do diálogo com outros Credos denomina-se ecumenismo, quando realizado entre cristãos, e diálogo inter-religioso quando a busca de aproximação é feita com crentes de outras religiões não cristãs.
O ecumenismo e o diálogo inter-religioso são um assunto fascinante e desafiador. Abordar estas questões requer, antes de mais, um exercício de despir-se de preconceitos ou qualquer outro tipo de resistência. Mas, acima de tudo, urge sinceridade e clareza nas nossas convicções e posições.
Há aspectos que são meramente circunstanciais, fruto de um percurso da história humana num determinado espaço e num determinado tempo, mas há coisas que são fundamentais e, abdicando delas, abdica-se do essencial da fé no Deus verdadeiro, que tem a plenitude da Sua revelação em Jesus Cristo. É o próprio Senhor Jesus que nos pede um caminho em direcção à unidade quando diz: «que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste»(Jo 17, 21).

No diálogo a Igreja torna-se mais fiel
O esforço pela unidade realiza a própria renovação da Igreja, na fidelidade à sua própria vocação: ser Sacramento Universal de Salvação.
Mas não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. É que os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e do livre exercício da caridade. Por isso, o cristão adulto implora do Espírito divino a graça da sincera abnegação, humildade e mansidão em servir, e da fraterna generosidade para com os outros.
O Concílio Ecuménico Vaticano II exortava os crentes, dizendo que «tanto melhor promoverão e até realizarão a união dos cristãos quanto mais se esforçarem por levar uma vida mais pura, de acordo com o Evangelho. Porque, quanto mais unidos estiverem em comunhão estreita com o Pai, o Verbo e o Espírito, tanto mais íntima e facilmente conseguirão aumentar a fraternidade mútua» (UR 7).
Contudo, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso não parte do princípio de que todas as opções religiosas são iguais e de que, acreditando que todas as pessoas de boa vontade se salvem pela misericórdia de Deus, todas as opções são iguais e que haveria que encontrar uma religião universal que englobe toda a Humanidade.

O diálogo como testemunho da Verdade
O cristão adulto sabe que só Jesus Cristo é o autêntico e único Salvador, que nos conduz à verdadeira fé, à fé plena, à autêntica verdade sobre Deus.
Assim, um cristão que se esforça pelo diálogo fá-lo a partir de alguns pressupostos básicos:
- sabe que a fé não é apenas uma relação individual ou individualista com Deus, é também a inserção na Comunidade dos crentes, na Igreja de Jesus Cristo, espaço onde se recebe, cresce e vive a fé;
- embora a fé cristã pressuponha um certo conhecimento é mais do que isso, é o acolher Jesus na vida, é o entregar a uma comunhão com Ele e, por Ele, a toda a Humanidade;
- a fé cristã é também histórica, isto é, Deus revelou-se na história da Humanidade, por diversas etapas, é na história que a pessoa escuta Deus e lhe responde e, por último, é na história pessoal de cada um que se vai experimentando, de forma imperfeita, a salvação que esperamos viver plenamente quando o tempo e o espaço já não tiverem influência sobre nós;
- a fé, por comunhão com o Deus Trino, é um estado sempre inacabado porque o Deus Amor permite sempre uma maior inserção no Seu Mistério, por isso é vivência da autêntica fé, a fé cristã, é sempre um mistério inesgotável.
No diálogo com as outras opções espirituais, o cristão adulto não esquece que vive a fé englobando a sua inteligência, afecto e vontade, por isso uma fé profundamente humana. Fé essa que engloba a totalidade da pessoa, com tudo que isso implica. A sua fé é um dom de Deus, que se procura diariamente aprofundar e cultivar.
Por isso, o diálogo não é para ‘ganhar’ novos adeptos, nem para ‘vencer o inimigo’, é antes uma consequência de se ter descoberto o Verdadeiro Deus, que é a Verdade, e a necessidade de O anunciar, tornando-o presente através da nossa acção.

23 dezembro 2008

Natal!

O Natal parece cada vez mais uma palavra escrita na água.
Mas os tempos de crise são, também, o tempo favorável para os contos de fadas, para o regresso ao artesanato de viver, para a atenção. E a atenção é o único caminho para o inexprimível, a única via para o mistério.
O Natal é, assim, aquela época da beleza em fuga, da graça e do mistério prestes a desaparecer e que, por isso mesmo, certos homens nunca renunciam…

03 dezembro 2008

PowerPoint’s úteis!?!?


O recurso às novas tecnologias tem sido, nos últimos tempos, um excelente contributo para dinamizar a acção de catequizar, nomeadamente na formação de catequistas.
As suas virtualidades e potencialidades são por demais evidentes. Um bom uso do PowerPoint faz com que a comunicação a realizar se torne mais clara e o fio condutor mais e perceptível.
Contudo, tem-se vindo a observar uma dificuldade que eu sintetizaria nesta frase: quando tenho pouco a dizer, exagero no aspecto gráfico.
Pelo que uma boa apresentação começa sempre por um sintetizar de ideias e conteúdos a transmitir, que depois coloco na apresentação. Nunca se fará uma boa formação, e muito menos catequese, se pego numa aplicação de PowerPoint e me limito a lê-la. Ou, pior a ianda, a ler uma aplicação que eu não fiz.

É com esta ressalva que partilho alguns link’s que têm aplicações muito completas.
Cabe a cada um de nós ver, utilizar o que nos serve. Mas quando apresentarmos que seja uma aplicação que já a fizemos nossa.

http://inicteol2.googlepages.com/60aulas
http://inicteol2.googlepages.com/catequese-infantil
http://klappiquiz.googlepages.com/

Estes link’s estão divulgados na página: http://www.montemuro.org/portal/

13 novembro 2008

Cristão Adulto - IX


Homem e Mulher, Deus os criou!

Depois de ter abordado alguns aspectos, que eu considero fundamentais para que um cristão se possa considerar adulto, vou debruçar-me sobre aspectos, aparentemente de fronteira. Daqueles que podem fazer a qualidade de uma vida cristã e que são, a maior parte das vezes, descuidados por se considerarem assumidos à partida. E não é bem assim.
Começo por me referir ao lugar da mulher na vida cristã, e faço-o pela mão do Mestre. De facto, Jesus, num ambiente tremendamente patriarcal, age com as mulheres de modo diferente.

Mulher marginalizada
As senhoras estavam marginalizadas em, pelo menos, três âmbitos: sexual, social e religioso.
No âmbito sexual, e por causa das normas de pureza, as mulheres estavam muitas vezes marginalizadas da restante comunidade – sobretudo religiosa –, o que provocaria graves danos na auto-estima e realização de cada uma delas. Mas Jesus age de modo diferente: admite-as como discípulas (Lc 8,1-3); fala com elas em público (Jo 4, 27); e num grande desafio aos preceitos do seu tempo restitui dignidade ao funcionamento corporal feminino, veja-se o caso da hemorroísa (Mc 5, 21-43).
A marginalização social da mulher empurrava a mulher para dentro de casa, para as lides domésticas, retirando-lhes responsabilidades sociais, políticas, jurídicas e religiosas. Jesus, por seu turno, reage tratando cada mulher como pessoa de facto, em igualdade com o varão. Veja-se o caso dos paralelismos nas parábolas: a mulher introduz o fermento na farinha (Mt 13,33) o varão semeia o grão de mostarda (Mt 13, 18-19); ou então o amigo inoportuno que pede pão durante a noite (Lc 11, 5-8) que corresponde com a viúva impertinente que pede ao juiz que se faça justiça (Lc 18, 1-8). A maneira de Jesus entender a actividade feminina iguala-a com a do varão. Jesus transforma as mulheres nas primeiras testemunhas da ressurreição, desafiando, assim, a concepção segundo a qual a mulher não era capaz de dar testemunho válido (Mc 16,7).
A nível religioso, a mulher estava secundarizada: não tinha acesso ao estudo da Torah, nem ao Templo e nem às outras realidades religiosas. As inúmeras prescrições legais de pureza ritual pelas quais tinha de passar dificultava-lhe ainda mais a sua realização como sujeito religioso adulto de pleno direito. Mas Jesus com as suas palavras e gestos erradica estas situações de injustiça. As mulheres participam no Reino de Deus em igualdade de condições com o varão. Veja-se o paralelismo da confissão de fé entre Marta (Jo 11,27) e Pedro (Jo 6, 69). Os textos pascais dão testemunho desta igualdade entre as mulheres e os varões, pois estão presentes nos momentos mais densos. É uma mulher que unge Cristo como profeta em Betânia (Mc 14, 3-9), são as mulheres que estão no lugar da Morte de Jesus Cristo (Mc 15, 40-41) e no Evangelho segundo São Marcos vê-se claramente a vinculação das mulheres ao discipulado e seguimento de Jesus, e são elas que primeiro dão testemunho da Ressurreição de Jesus.
No fundo, a síntese está em São Paulo quando diz: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa” (Gl 8, 28).

Complementaridade imprescindível
Chegados aqui, vemos que a complementaridade entre os dois géneros é o único caminho a seguir, sem qualquer subjugação ou subordinação.
Contudo, na história da Igreja, no seu esforço de realização histórica do projecto de Deus, nem sempre foi assim, porque o esforço de institucionalização esclesiástico levou a que se esquecessem algumas das realidades acima referidas. As necessidades de adaptação ao meio cultural envolvente prevaleceram para que sobrevivessem a disciplina e a boa ordem. Cada pessoa é fruto também do seu tempo… E hoje podemos dizer com convicção que a mulher precisa de ser mais reconhecida e valorizada dentro da nossa sociedade e também dentro da Comunidade eclesial.
Considero que a Igreja ficou privada de uma dimensão muito importante – a dimensão feminina – que empobrece a sua mediação histórica de Corpo de Cristo, porque se não contar com a presença de todos os fiéis, vê-se incompleta na sua missão.

Que as falsas imagens de Deus e a má compreensão da relação entre mulher e varão, juntamente com o nosso pecado, não nos continue a impedir de ver com clareza a beleza da Criação: “Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher” (Gn 1,27).