30 junho 2005

Catequese e Comunidade


Na próxima terça-feira, 5 de Julho, reúnem-se em Bragança os responsáveis pelos Serviços Diocesanos de Catequese, das Dioceses do Norte de Portugal.
O responsável,
P.e Manuel Queirós da Costa, da Diocese de Vila Real, enviou o texto que se segue para reflexão e posterior debate.
Partilho-o com todos os interessados. Se quiserem enviar algum comentário, estejam à vontade.



1. Ao proclamar o Evangelho, Jesus Cristo partilha a sua missão com a comunidade dos discípulos: os doze (Mt 10,1) o grupo mais alargado que segue Jesus (Mt 8,22), os setenta e dois (Lc 10,1), as mulheres que O acompanham (Lc 8,1-3).

2. A Igreja nascente recebe do Senhor Ressuscitado a missão de fazer discípulos de todas as nações (Mt 28,19-20;DGC 34). O processo de evangelização, pelo qual se transmite a fé, inclui etapas distintas: o primeiro anúncio do Evangelho (sementeira da Palavra) cumpre-se de forma básica e fundamental na catequese (crescimento e maturação que produz fruto). Existe uma relação tão profunda entre evangelização e catequese que se pode comparar ao grão e à espiga (ver Mc 4,1-20). A catequese, para baptizados ou para quem se prepara para receber o baptismo, implica uma entrega viva do Evangelho e de todo o Evangelho aos homens (DGC 78,105 e 111).

3. O texto bíblico mais citado pelo Concílio Vaticano II é Act 2, 42-47 que recolhe a experiência da primeira comunidade cristã. O concílio refere-se a este texto quando se pronuncia sobre o que deve ser a Igreja (LG 13;DV 10), a vida do sacerdote (PO 17 y 21), do missionário (AG 25) e a vida religiosa (PC 15). O Concilio foi aliás convocado para devolver ao rosto da Igreja de Cristo todo o seu esplendor, revelando as características mais puras e mais simples da sua origem (João XXIII, Discurso preparatório, 13-11-1960).

4. As primeiras comunidades são constituídas por grupos de homens e mulheres que se reúnem no dia do Senhor (Ap 1,7). Entre todos estabelece-se una relação de fraternidade. Deste modo, o mistério de comunhão que constitui a Igreja (ver LG 1) torna-se visível também aos olhos dos não crentes, que dizem: «Vede como eles se amam! São como que uma grande família». A Igreja não é exército (relação de comando: superior - subordinado) não é escola (relação de ensino: mestre - discípulo) mas é comunidade (relação de fraternidade).

5. O fundamento dessa comunhão, o que verdadeiramente aglutina a nova família dos discípulos, é a Palavra de Deus: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8,21). Quem acolhe a Palavra, vincula-se à comunidade.

6. Nas primeiras comunidades, a Palavra de Deus faz-se experiência de Cristo (Act 2,36) e experiência de conversão (2,38). A comunidade é lugar de perdão e da acção do Espírito (Act 2,38). É lugar de ensino, de comunhão, de celebração e de oração (2,38.42). Na comunidade há sinais (2,45), que confirmam a Palavra anunciada. A comunhão de corações traduz-se numa efectiva comunicação de bens (2,44 e 4,32). A comunidade acolhe e incorpora os novos membros (2,47).

7. As primeiras comunidades são minoria dentro da sociedade, encontram-se em situação política e religiosa adversa. Porém, são como uma cidade levantada no alto de um monte (Mt 5,14), como levedura na massa (Lc 13,21). Dá-se nelas um forte processo de evangelização quer de adultos, quer de crianças. A catequese faz-se por imersão na vida da comunidade (Act 2,46; ver 12, 12; 1 Cor 16,19; Flm 2; Col 4,15).

8. Sendo comunidade, a Igreja é luz das gentes (LG 1), sinal levantado no meio das nações (SC 2), sacramento universal de salvação (GS 45). Não é o indivíduo mas sim a comunidade que pode evangelizar. Não é o indivíduo mas sim a comunidade que renova profundamente a Igreja. A comunidade é o grande sinal do Evangelho oferecido à humanidade.

9. No Sínodo de 1977 a comunidade eclesial viva é considerada como o lugar principal de catequização: «Como para a evangelização também a catequese, são da maior importância as comunidades eclesiais de base. De facto, dentro delas, sentem-se os cristãos Igreja, de modo pessoal, contagiam-se na experiência da fé e educam-se no amor fraterno» (Prop. 29) No nosso tempo, é preciso refazer o tecido comunitário da Igreja. Sem tecido comunitário, vê-se o esqueleto à Igreja e, em vez de atrair, espanta (ver Ez 37,11). O Sínodo da catequese foi crítico com a situação actual da paróquia, necessitada de profunda renovação: De facto, muitas paróquias, por diversas razões, estão longe de constituir uma verdadeira comunidade cristã. No entanto, a via ideal para renovar esta dimensão comunitária da paróquia poderá passar por fazer dela uma comunidade de pequenas comunidades (Prop. 29;ChL 26, 34; DGC 258).

10. A comunidade é a origem, o lugar e a meta da catequese (DGC 254). Em primeiro lugar, é a origem. O catequista não actua em seu próprio nome mas em nome da comunidade cristã e, portanto, em nome da Igreja (local e universal): Quando o mais humilde catequista...reúne a sua pequena comunidade, mesmo sozinho, exerce um acto de Igreja (EN 60; DGC 253,254,261,263 e 264). Mais, o catequista está entroncado numa tradição viva, que remonta aos apóstolos. Pode dizer como Paulo: Transmiti-vos o que eu mesmo recebi (1 Cor 15,3).

11. A comunidade é o lugar ou âmbito normal da catequese (MPD 13). É como o seio materno onde se faz a gestação do homem novo por meio da Palavra de Deus viva e permanente (I Pe 1, 23). É a piscina de Siloé na qual o cego de nascença cura sua cegueira original (Jo 9,7). O testemunho da comunidade é fundamental.


12. A comunidade é a meta da catequese: «A catequese corre o risco de se esterilizar, se uma comunidade de fé e vida cristã não acolher o catecúmeno a certo passo da sua catequização. É por isto que a comunidade eclesial, a todos os níveis, é duplamente responsável em relação à catequese: antes de mais, tem a responsabilidade de prover à formação dos próprios membros; depois, também a de os acolher num meio ambiente em que possam viver o mais plenamente possível aquilo que aprenderam» (CT 24). A catequese cria comunidade (se não existe) e renova-a (se já existe). Enfim, a catequese conduz à maturidade da fé da comunidade e de cada fiel.


Algumas questões para o debate:

- O que é uma comunidade cristã? Quais as suas características principais?
- Que importância tem para a iniciação cristã?
- Qual o seu papel na transmissão da fé?
- Que desafios se colocam hoje à catequese?
- Os catequistas vivem a experiência comunitária que desejam transmitir?

Uma pedagogia para a Iniciação Cristã - Conclusão

Concluo dizendo que convém ter presente que a catequese de iniciação tem uns objectivos que, para além da socialização religiosa, contempla o desenvolver a graça baptismal, através da evangelização, realizando uma primeira síntese de fé pessoal, a personalização da fé, juntamente com a iniciação sacramental.
Os conteúdos são eminentemente educativos, com o objectivo de desenvolver aqueles recursos humanos que formam o substrato antropológico da vida de fé. Ter-se-á em conta a História Sagrada, apresentando a narração dos acontecimentos e as personagens de uma forma existencial e orante. Também se deve procurar apresentar Jesus Cristo, de forma inicial e sistemática, na totalidade do seu Mistério (Salvador e Redentor). Apresentar-se-á a Igreja e a vida eterna. A iniciação sacramental será também tida em conta, pelo que se apresentam os sacramentos da Igreja e se ensina a participar neles, apresenta-se também a liturgia, dando atenção ao rito, ao sinal, ao símbolo e à representação. Acima de tudo, tendo presente que a liturgia é o catecismo vivo, faz-se a relação entre o que se celebra e o que acredita.

29 junho 2005

Uma pedagogia para a Iniciação Cristã - V

Por último, na coordenada psico-pedagógica vamos ter presente que se trata de uma pedagogia integral e de uma pedagogia da fé.
A pedagogia precisa de ser integral, ou seja, que verse o saber (cognitivo-intelectual), o ser (afectividade, sentimentos e valores) e o fazer (comportamentos). Esta pedagogia precisa de ser equilibrada, na fidelidade ao homem e a Deus (lei da encarnação).
A pedagogia da fé é o modo de acompanhar o catequizando em ordem à profissão de fé, com os critérios próprios da fé. Para isso bebe da pedagogia de Deus e da pedagogia da Igreja. Daqui que não se pode ser mestre e pedagogo da fé dos outros se não se é discípulo convicto e fiel de Cristo na Sua Igreja(cf DGC 142).
Esta pedagogia deve ser considerada como o processo de amadurecimento e de crescimento na fé, desenvolvido de maneira gradual e por etapas; inspira-se, como fonte e modelo, na pedagogia de Deus manifestada em Cristo e na vida da Igreja, e conta com a acção do Espírito Santo na Comunidade e em cada cristão. A comunidade ajuda com o exemplo e a oração para que se dê o passo do homem velho para o homem novo, lutando contra o mal, com a ajuda da graça de Deus, em ordem a fazer a experiência alegre de ser salvo por Jesus Cristo.
A pedagogia catequética deve conseguir alcançar os três objectivos: instruir, transmitindo informação e conhecimentos seguros, transmitindo certezas e convicções; iniciar, levar cada catequizando a transformar-se no homem novo, realizando a conversão de toda a sua personalidade, a conversão do coração; por último deve também educar, ou seja, formar a pessoa e propondo-lhe novos comportamentos conformes à fé que aprende a professar.
Os objectivos, para além da socialização religiosa, são o desenvolver a graça baptismal, através da evangelização, realizando uma primeira síntese de fé, de forma pessoal, a personalização da fé, juntamente com a iniciação sacramental.
Os conteúdos são eminentemente educativos, com o objectivo de desenvolver aqueles recursos humanos que formam o substrato antropológico da vida de fé. Ter-se-á em conta a História Sagrada, apresentando a narração dos acontecimentos e as personagens de uma forma existencial e orante. Também se deve procurar apresentar Jesus Cristo, de forma inicial e sistemática, na totalidade do seu Mistério (Salvador e Redentor). Apresentar-se-á a Igreja e a vida eterna. A iniciação sacramental será também tida em conta, pelo que se apresentam os sacramentos da Igreja e se ensina a participar neles, apresenta-se também a liturgia, dando atenção ao rito, ao sinal, ao símbolo e à representação.
Acima de tudo, tendo presente que a liturgia é o catecismo vivo, faz-se a relação entre aquilo que se reza e aquilo em que se crê.

28 junho 2005

Uma pedagogia para a Iniciação Cristã - IV

Chegou a vez da dimensão espiritual. Convém ter bem presente que a eficácia da catequese é e será sempre um dom Deus, mediante a acção do Espírito Santo, sem o qual não é possível fazer catequese ou qualquer outra acção evangelizadora, por muito elaborados que estejam os planos e por mais sofisticados que sejam os meios humanos e materiais. Sem Espírito nada se consegue, pois o Espírito Santo é o protagonista de toda a missão da Igreja(cf RM 21); é o mestre interior, principal catequista e princípio inspirador de todas as actividades catequéticas.

O Catequista
Convém recordar também o papel do catequista, que é elemento essencial da catequese, o catecismo vivo: enviado pela Igreja, numa comunidade concreta, realiza a sua vocação profética no seu grupo de catequese, onde anuncia, ilumina, persuade, testemunha, colabora com a função da comunidade cristã. Para que haja, pois, iniciação cristã é preciso um iniciador, chamado catequista, que é a alma da catequese. Aquele que é «chamado a ensinar Cristo deve, portanto, antes de mais nada, procurar esse lucro sobreeminente que é o conhecimento de Jesus Cristo. Tem de aceitar perder tudo (...) para ganhar a Cristo e encontrar-se nEle e conhecê-Lo, a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os sofrimentos, conformar-se com Ele na morte, na esperança de chegar a ressuscitar dos mortos»(CCE 428). O catequista é, então, uma pessoa de fé profunda, que conhece os mistérios de Deus e vive em plena comunhão com eles, emergido no amor de Deus. Vive-os em Igreja, por isso é dotado de uma clara identidade cristã e eclesial, pelo que nada do que é humano lhe é alheio, logo possui uma profunda sensibilidade social(cf DGC 237). O catequista respeita e vive de «um princípio essencial da visão cristã da vida: o primado da graça»(NMI 38).
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(c) 2003 - Pedro Nogueira

27 junho 2005

Uma pedagogia para a Iniciação Cristã - III

A coordenada catequética centra a sua atenção no específico da catequese que é o estar ao serviço da iniciação cristã, tendo presente que a fé é um dom de Deus. Esta iniciativa divina e primeira do Pai verifica-se nas palavras e gestos que Jesus Cristo ressuscitado realiza na Igreja, sua Esposa e nossa Mãe, que, sob a acção do Espírito Santo, guia e conduz aqueles que são chamados a entrar na comunhão de vida trinitária.
A Igreja, através da iniciação cristã, manifesta a sua identidade de mãe e, enquanto incorpora o homem a Cristo, incorpora-o no Corpo de Cristo; enquanto gera cristãos, edifica a Igreja, de modo que podemos afirmar que pela iniciação cristã a Igreja gera a Igreja.
A Igreja realiza esta missão através de duas funções pastorais intimamente relacionadas: a catequese e a liturgia. A catequese é um elemento imprescindível da iniciação cristã e está vinculada aos sacramentos de iniciação.
A catequese é, então, uma formação orgânica e sistemática na fé, mas mais que um mero ensino, pois é uma aprendizagem de toda a vida cristã, uma iniciação cristã integral. Ajuda o discípulo de Cristo a transformar o homem velho, assumindo os seus compromissos baptismais e a professar a fé a partir do coração. É ainda uma formação de base essencial, centrada no essencial da experiência cristã, nas certezas mais profundas da fé e nos valores evangélicos mais fundamentais. Habilita o catequizando a receber o sólido alimento posterior, na vida ordinária da comunidade eclesial, à qual também inicia. Ou seja, incorpora na comunidade que confessa, celebra, vive e ora a fé, e dela dá testemunho.
Este itinerário, todo ele eclesial, leva à incorporação efectiva e afectiva do catequizando no Mistério de Deus, e tem no catecumenado baptismal o seu modelo inpirador(cf DGC 90).
Desde os tempos apostólicos, o «tornar-se cristão» exige um caminho de iniciação, com diversas etapas, que pode ser percorrido rápida ou lentamente (cf CCE 1229). E uma vez que é um processo de conversão é essencialmente gradual e cristocêntrico, porque está ao serviço daquele que decidiu seguir Cristo, em ordem à personalização da fé, com a ajuda dos catequistas, que são os testemunhos e pontos de referência, que ajudam a integrar fé e vida, a criar identidade cristã.

Despertar Religioso
A preceder esta etapa catequética de iniciação cristã deve realizar-se o despertar religioso, no seio familiar, onde a criança recebeu os primeiros rudimentos da fé, as breves orações com as quais aprende a dialogar com Deus, desenvolveu os inícios da educação da consciência moral, entre outras. Esta educação cristã é mais testemunhal que instrutiva, mais ocasional que sistemática, não está estruturada em períodos, antes é permanente e quotidiana.